Dedos-duros e fofoqueiros

30/09/2008

Por Natália Guerreiro
© Lucien Aigner/CORBIS

© Lucien Aigner/CORBIS

Ninguém gosta de um dedo-duro ou (al)cagüete (= tattletale; telltale), aquela pessoa com a desagradável mania de relatar o que o outro fez de errado para alguém em posição de autoridade (professor ou pai, por exemplo). Conforme o código informal de conduta no colégio, dedurar ou “entregar” o coleguinha (= to tell on sb; to tattle on sb; to snitch on sb; to rat sb out; to rat on sb; to finger) é crime punido com ostracismo social.

Delatar pode ter conseqüências piores ainda quando o má ação é de fato um crime. O informante (=informer), vulgo X9 (= snitch, narc, supergrass), pode ter um triste fim se sua traição for descoberta.

Mas nem tudo é intencional. Às vezes, é sem querer que se bate/dá com a língua nos dentes ou se deixa escapar (=let the cat out of the bag) e, quando se vai ver, já se contou o segredo de alguém (tell sb’s secret). Quem comete indiscrições assim com freqüência é um blabbermouth, ou seja, alguém que tende a blab.

Cá entre nós, nesse caso, a pessoa provavelmente já merece o título de fofoqueira, mexeriqueira (=gossip), leva-e-traz (=busybody; talebearer) ou intrometida (=nosy). E os fofoqueiros, todos sabem, não têm limites: entregam os podres (=dish the dirt) e até espalham boatos (=spread rumo(u)rs). Por sinal, dish, assim como gossip e tittle-tattle, também é palavra usada para se referir a fofoca ou mexerico.

No entanto, a boataria (disse-me-disse, diz-que-me-diz) às vezes acaba na justiça. Comentários difamatórios (=defamatory) podem levar a um processo por calúnia, injúria e difamação (=defamation, que pode ser uma slander ou libel, a depender se tiver sido feito oralmente ou por escrito*). Ainda no tribunal, nem sempre são aceitas informações de segunda mão (hearsay or secondhand evidence).

E eu, que já falei tanto, que não tenho mais nada a dizer (=I’m all talked out), termino com o começo: formas de se abrir uma maledicência. 

  • Dizem as más línguas que…”/ “Reza a lenda que…” (=”Rumor has it…”; “As the story goes…”; “As the story runs…”);
  • Tão dizendo que…” (”Word on the street is…” )
  • “Você (não) tá sabendo das últimas?” (=”Have(n’t) you heard?”; “as últimas” =  the latest dish);
  • Ouvi dizer que…” (=”I heard through the grapewine that…”)
  • Não diga que fui eu que falei” (=”You didn’t hear it from me“).

 

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ 

*Para ser mais preciso, segundo o Modern Legal Usage de Brian Garner, “slander” é feito oralmente e de forma fugaz, ao passo que “libel” costuma ser por escrito e publicado, mas pode também ser oral desde que tenha sido registrado ou transmitido por alguma mídia.

Entry Filed under: cotidiano, gíria, idioms. .

2 Comments Add your own

  • 1. Michel  |  30/09/2008 at 18:33

    Quantas expressões para esse pessoal linguarudo!
    Vão mais algumas em português:
    O peixe morre é pela boca
    (ter) um palmo e meio de língua
    Um passarinho me contou
    Cair na boca do povo

  • 2. Natália Guerreiro  |  09/12/2008 at 23:52

    Faltou “xereta” com seu possível correspondente em inglês, “snoop”.

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